O que é a Virtude da Prudência?

“Ensinar virtudes para as crianças? Que ideia ótima! Quero que eles aprendam a ser fortes, resilientes, determinados, perseverantes… Prudentes? É, talvez…”

Estamos recomeçando por aqui o Projeto Virtude do Mês e dessa vez a primeira virtude será essa que não parece muito popular.

O que você pensa: é melhor ensinar a ser forte e ousado, ou ser prudente?

Em um mundo que valoriza os conquistadores, os ousados, os irreverentes e até rebeldes, falar sobre Prudência parece até um pouco contraditório. Afinal, prudência é uma atitude meio fraca, não é? Típica de quem tem medo de sonhar alto, “sair da zona de conforto”, “se jogar na vida”…

Temos aqui dois problemas: o primeiro é que a visão comum que se tem sobre prudência é reduzida. A segunda é que se não entendemos a importância de ensinar as crianças desde cedo a serem prudentes, criaremos um geração incapaz de lidar com os problemas da vida – e logo abaixo comentarei sobre isso.

Antes, no entanto, comecemos por entender o sentido mais profundo dessa virtude:

  1. O QUE É A VIRTUDE DA PRUDÊNCIA?

Antes de tudo, precisamos entender que prudência não é meramente cautela. Quando pesquisar em um dicionário comum, você encontrará definições como “a qualidade de quem procura evitar consequências desagradáveis”, “circunspecção, reserva, atitude de evitar o mal”. Esse é, de fato, o sentido mais popularmente conhecido da palavra prudência.

Mas não devemos nos contentar com o que senso comum nos diz. T.S. Eliot disse, certa vez: “As palavras de distendem, estalam e às vezes se quebram sob o fardo”. Isso é muito verdadeiro! Já percebeu como palavras importantes tiveram seu sentido distorcido ao longo do tempo? E, se ao distorcer o significado das palavras, nossas ideias também podem ser distorcidas, devemos concordar que precisamos muito resgatar o verdadeiro significado das coisas.

Para entender o sentido de uma palavra podemos fazer um exercício que gosto muito: conhecer a sua origem e a sua história.

Para começar, pesquisamos para saber de onde vem a palavra que usamos hoje. No caso da palavra “prudência”, descobrimos que veio do Latim prudentĭa, que significa algo como “ver antecipadamente”, ou a capacidade de prever o que está para acontecer. Mas pensar nas consequências das ações é algo que fazemos apenas com o objetivo de evitar os problemas?

Se voltarmos um pouco na História, descobriremos que, embora tenha sido tema de estudos e reflexões dos grandes pensadores cristãos como Santo Agostinho e depois Tomás de Aquino, o termo “Virtude da Prudência” surgiu muito tempo antes, na Grécia Antiga. Platão já falava sobre essa virtude, mas foi seu discípulo Aristóteles quem escreveu de modo mais específico não só sobre essa, mas sobre diversas virtudes.

Nosso amigo Aristóteles

Como você pode deduzir, na época não se usava a palavra “prudentia“, visto que a língua ali era o grego, não o latim. A palavra usada por Aristóteles era “phronesis“, ou φρόνησις. Agora, veja que interessante: se você copiar essa palavra grega e pesquisar a tradução na internet, em alguns lugares encontrará o significado dela como “sabedoria”. Mas, como assim? “Sabedoria” não é “sofia“?

E aqui Aristóteles pode nos ajudar, porque ele explica a prudência como “a sabedoria prática” que nos leva a agir conforme o que é bom ou mau . A diferença, segundo ele, é que enquanto a sabedoria geral implica em adquirir conhecimento a partir da lógica sobre a Verdade, a sabedoria prática (prudência) se baseia nas experiências da vida.

2. QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA VIDA SEM PRUDÊNCIA?

Se seguimos a lógica acima, muito mais do que servir para evitar os problemas, a Virtude da Prudência é aquela qualidade de quem sabe tomar boas decisões – fazer escolhas que resultem em uma vida frutífera e contribua para o bem não somente seu, mas também dos outros.

Assim, quem não desenvolve em sua vida essa virtude está fadado a ser aquele que diz: “Essa não! O que foi que eu fiz?” E se arrepende, e chora, e sofre as consequências, para dali a alguns dias ou semanas fazer tudo exatamente igual, recomeçando o ciclo vicioso sem fim da insensatez. É a rotina de quem simplesmente não para para avaliar seu coração, suas atitudes e sua vida.

A Bíblia fala muitas vezes sobre ser prudente, especialmente no livro de Provérbios, que é o livro que nos ensina como viver. Ali, em muitos textos a palavra hebraica usada é עָרוּם ‘arum, que pode ser traduzida como “sagaz, esperto”, como no texto que diz: “O prudente vê o mal e se esconde, mas os simples passam adiante e sofrem a pena”. (Provérbios 27.12). Ser prudente, nesse sentido, também envolve desenvolver essa capacidade de perceber a maldade das pessoas. Quando essa virtude falta, vemos aquela ingenuidade de quem vez após vez cai em ciladas ou são facilmente manipuladas por outros.

Um vida sem Prudência certamente não pode ser considerada frutífera e plena.

Escrito por Katarine Jordão
Fevereiro/2022

***

Antes de seguirmos adiante conversando sobre como ensinar esse virtude às crianças, quero sugerir a você uma reflexão: você considera a si mesmo uma pessoa prudente? Se fosse avaliar a si mesmo, de 0 a 10, considerando sua capacidade de tomar decisões que resultam em bons frutos, qual seria a sua nota?

Continuaremos, neste mês a conversar sobre a Virtude da Prudência, que foi a virtude que trabalhamos em fevereiro no material do Clube Volta ao Mundo em Família, com a história de Fortunatus.

Quer trabalhar o caráter de suas crianças de modo mais intencional? Conheça nossos materiais:

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